Antes quando os seres humanos não sabia responder por que algo acontecia, eles voltavam-se para mitologia, nessa história que estou trazendo é uma mitologia grega sobre as quatro estações.Perséfone era filha única de Deméter e orgulho de sua mãe. Juntas, as duas divindades tornavam a terra viçosa e fecunda, todavia a beleza e juventude da Virgem da Primavera eram tal que fazia empalidecer de inveja às outras deusas e suspirar de amor os deuses.
Hades, o Senhor dos Mundos Subterrâneos, era uma divindade poderosíssima, porem infeliz. Na partilha do Mundo com os seus irmãos, os domínios luminosos dos Céus ficou com Zeus e dos Mares com Posídon, entregando-lhe, para toda a eternidade, esse império de trevas, de sofrimento e de morte!
Um mundo sem a beleza, o som de uma canção ou de um riso, uma brisa ou de esperança, apenas abismos povoados de monstros e de sombras. Nenhuma presença feminina, gesto de ternura ou beijo de paixão adoçara alguma vez a alma atormentada do Senhor dos Infernos. Temido e mal amado por deuses e homens, tornara-se sombrio e feroz, sem piedade nem compaixão pelo sofrimento alheio.
Uma noite para se distrair da sua eterna melancolia, Hades olhou a Terra através da Grande Esmeralda da Visão que lhe permitia observar todo o mundo. O raio verde-esmeralda varreu as trevas e os espaços, mostrou-lhe o sempre visto __ a luz dos outros mundos, as cores frescas da Primavera e a incauta alegria da vida __ e o Senhor dos Infernos suspirou de tédio e amargura.
Mas, de súbito, no olho da Esmeralda surgiu o rosto de Perséfone, a filha de Zeus e de Deméter, e Hades estremeceu com uma emoção desconhecida. Só o orvalho dos seus olhos faria reverdecer as árvores de pedra dos jardins do Inferno, só a doçura da sua voz poderia abrandar os lamentos dos condenados e apenas o riso de cristal lograria inflamar o seu frio coração de diamante.
A partir desse momento, Hades nunca mais deixou de pensar na sobrinha, espreitando-a a toda a hora através da esmeralda, estudando-lhe os gestos e as expressões. Cada vez mais enamorado, descurou a vigilância nos mundos infernais, o equilíbrio a ordem do Universo ressentiram-se e Zeus foi chamado a intervir.
Sempre compreensivo para com os amores difíceis (quantas vezes não se encontrara já em situações impossíveis por causa de uma mulher ou de uma ninfa?!), Zeus prestou-se a ajudá-lo no rapto de Perséfone, pois Deméter nunca daria o seu consentimento para a filha adorada ir viver no Mundo dos Infernos.
Assim, quando Perséfone passeava com as gentis Oceânides, as filhas de Tétis e Oceano, na planície de Enna, Hades fez brotar, ao longe, um campo de narcisos. Atraída pela bela mancha dourada das flores e pelo perfume que lhe acariciava os sentidos, a Virgem da Primavera afastou-se das suas companheiras para colher um ramo. Apenas tinha arrancado o primeiro narciso, quando o chão se rasgou numa fenda profunda, de onde saíram duas parelhas de dragões, puxando uma quadriga, conduzida por um formidável cavaleiro, negro como o ébano.
Sem tempo para recuperar do seu espanto, Perséfone encontrou-se entre os braços poderosos do estranho raptor, mergulhando através da fenda abissal no Império das Sombras. Só teve tempo de soltar um grito, por entre os soluços que a sufocavam, antes do chão se fechar sobre a sua cabeça e ficar nas trevas mais profundas, sentindo que o carro descia a uma velocidade diabólica ao encontro do seu destino. Quem seria o guerreiro que assim a levava do mundo dos vivos? Mal o vira, mas guardava a imagem de uns olhos negros, fatais e atormentados, num rosto muito belo. Sentia no braço que a enlaçava uma estranha delicadeza e a mão, que lhe mantinha a cabeça encostada ao peito imenso, tinha a ternura de uma carícia. A vertigem do abismo fazia com que Perséfone, amendrontada, se apertasse contra o corpo do seu raptor e, assim, ouvisse o bater descompassado do seu coração, como se também ele estivesse assustado.
Chegados aos aposentos do Senhor dos Mundos Subterrâneos, Perséfone soube que o raptor era o seu próprio tio que nunca vira e sempre temera. Estava mais tranquila, embora aquele lugar vibrasse com um poder de forças ocultas e terríveis e as suas narinas captassem estranhos odores.
Hades parecia perturbado como um adolescente, pedindo-lhe perdão pela maneira como a trouxera para o seu mundo, falando no consentimento de Zeus. A jovem olhava-o, esquecendo o medo. Era tão belo!
Hades queria mostrar-lhe os seus domínios e preparara tudo para a receber, iluminando o reino das sombras como um palácio em festa, para que Perséfone não tivesse medo. Mandara silenciar as matilhas uivantes e aliviar as penas dos condenados, para que nenhum som infernal destruísse a harmonia do momento. E trouxera as pedras mais preciosas do coração da terra, para delas fazer presente à sua amada. Mas a filha de Deméter via os rios de sombra, as árvores de pedra, a população imensa de monstros e de pecadores e estremecia de horror. Até Cérbero, a manifestar-lhe o seu carinho com meigas lambidelas das suas três línguas, lhe fazia gelar o sangue nas veias.
Quando o deus dos Infernos a convidou a comer, Perséfone recusou, pois sabia que se quebrasse o jejum no mundo dos mortos não mais poderia partir.
Hades levou-a então a um lugar mágico que criara para a sua amada, um jardim cheio de flores e frutos, como um oásis luminoso num deserto de trevas. Sentados sob uma romãzeira carregada de frutos, o deus terrível falou-lhe do seu horrendo trabalho, da sua vida sem amor e sem esperança. Como poderia ser compassivo e generoso se nunca fora amado?
Perséfone deixou-se envolver pelo sofrimento e a solidão dos belos olhos negros e aceitou os bagos rubros da romã que Hades lhe oferecia com ternas palavras de amor, selando assim o seu destino.
Entretanto na Terra, durante nove dias e nove noites, Deméter, louca de angústia, sem comer nem dormir, percorreu o Mundo à procura da filha, mas nem deuses nem humanos sabiam dizer-lhe o que tinha acontecido. Por fim, o Sol (que tudo vê) compadeceu-se dela e contou-lhe a verdade __ Perséfone encontrava-se nos Mundos Subterrâneos, entre as sombras dos mortos. Amargurada, Deméter abandonou o Olimpo e refugiou-se numa cabana, recusando-se a abençoar a terra com os seus frutos e sementeiras, tornando os solos estéreis e condenando a raça humana à fome e à miséria.
Zeus compreendeu que tinha de obrigar Hades a libertar a Perséfone e enviou Hermes aos Infernos com a sua mensagem.
O Mensageiro dos Deuses encontrou o casal em doce harmonia e transmitiu-lhes a mensagem. Hades obedeceu, contrariado. O Mensageiro viu surpreendido como a jovem se despedia ternamente do deus, prometendo voltar. Mais do que o bago da romã, parecia ser o amor a ligar a risonha deusa da primavera à sombria beleza do Senhor dos Infernos. Mal Deméter abraçou a filha, compreendeu que ela já não era a mesma menina alegre e inocente, um véu de melancolia punha sombras nos seus olhos. Perséfone confessou-lhe ter provado o bago da romã do jardim de Hades e, portanto, teria de voltar e a mãe chorou de tristeza e impotência. Para apaziguar o sofrimento de Deméter, Perséfone prometeu partilhar a sua vida com ela e o marido, vindo passar metade do ano na terra para ajudar a mãe nas suas tarefas e indo viver os restantes seis meses no Mundo dos Mortos.
Deméter aceitou o pacto e, durante os seis meses, que Perséfone vem viver com ela, faz eclodir na terra a Primavera e o Verão numa profusão de flores e frutos; porém, logo que a filha regressa ao Império de Hades, a deusa da abundância recolhe-se na sua solidão e o Outono e o Inverno apoderam-se da terra, cobrindo-a com o seu manto de tristeza.


